Super mulher e seus poderes não mágicos: como cuidar da conexão do corpo e mente?

Era uma vez a super mulher. Todos os dias, ela precisa dar conta de muitas coisas, dar o check em toda a listinha de tarefas, porque, afinal de contas, ela tem alguns super poderes que ninguém mais tem: o de limpar melhor a casa que todo mundo; o de cuidar como ninguém de todos da família; o de cozinhar aquela comida saudável e cheia de nutrientes para ela, o(a) companheiro(a) e filhos; o de levantar diariamente às 6h da manhã para cuidar do corpo, afinal, ela quer estar em forma; o de fazer as meditações diárias, porque ajuda a estabilizar a saúde mental; o de ir para a terapia uma vez por semana para não perder o equilíbrio; o de ler tantos livros por mês, porque vai trazer mais conhecimento e inteligência; o de encontrar as amigas, porque ela tem direito de ter uma vida social; o de trabalhar um pouquinho mais, porque ela gosta de entregar sempre além do que foi pedido… e muitos outros super poderes que só a supermulher tem e pode usar.

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A super mulher, embora pareça, não é real

Se você se identificou com esse texto e acha que ele não é baseado em fatos fictícios, eu gostaria de deixar claro que ele é sim. E que qualquer identificação é uma mera coincidência. Como uma super mulher, cheia de super poderes, eu fui aprender na prática que esses “super” poderes são mesmo típicos de toda mulher. Mas fazer tudo ao mesmo tempo está longe de ser um super poder, e nos traz estresse, burnout e, em muitos casos, vários outros problemas de saúde. E é fácil deduzir o porquê. Com tantas obrigações, o corpo não aguenta e acaba se sobrecarregando física e mentalmente. Chega-se ao esgotamento e desequilíbrio mental, o que afeta em cadeia várias outras atividades de forma prejudicial

Uma análise separada da empresa de consultoria Great Place to Work e da startup de saúde Maven observou que mães com empregos remunerados têm 23% mais chances de sofrer de burnout que pais empregados. Desde o começo da pandemia, estima-se que 2,35 milhões de mães que trabalham fora nos Estados Unidos sofreram de esgotamento profissional, especificamente “devido às demandas desiguais da casa e do trabalho”, mostrou a análise. (Por que mulheres sofrem mais de síndrome de burnout do que homens – BBC, 2022)

O que deve ser feito, então, a partir dessas conclusões que envolvem uma estrutura social que não será mudada com tanta facilidade? Focar em si mesma e no que pode ser feito para mudar essa situação – de dentro para fora – é uma das soluções nas quais eu acredito. Por isso, começo hoje essa série chamada “Super mulher e seus poderes não mágicos”, para falar, refletir e também debater com profissionais que podem nos ajudar a chegar um passinho adiante nessa nossa (eterna) construção.

Hoje, conforme introduzi no tema acima, quero falar sobre “conexão corpo e mente”. Uma pauta que surgiu aos poucos na minha própria vida e que tem mudado todos os passos da minha trajetória. Quem me apresentou esse assunto foi a médica Natália Alencar, endocrinologista (USP) e especialista em tratamentos da obesidade, da diabetes e do tratamento hormonal para pessoas trans. Ela escreveu o livro “Saúde em Harmonia”, que fala exatamente sobre nossa conversa a seguir.

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Manu Silveira: é mais ou menos difícil cuidar da saúde (físico e mental) sendo mulher?

Dra. Natália Alencar: Pergunta difícil! Acredito que temos dois lados a serem considerados. O primeiro lado é que, como você descreveu perfeitamente no seu texto, as mulheres acabam ficando mais sobrecarregadas no trabalho de casa, devido ao meio cultural machista no qual estamos inseridos, que ainda espera das mulheres um maior gasto de energia (física e mental) para administrar a casa, cuidar da alimentação da família e gerenciar todos os cuidados com as crianças, para quem tem filho. Levar os filhos ao pediatra, cuidar da vacinação, escolher o que eles vão comer… são tantas as tarefas que são implicitamente colocadas como “obrigação” feminina e sobrecarregam as mulheres.

Por esse lado, as mulheres acabam tendo mais dificuldade de ter energia para o seu autocuidado. O outro lado que acredito também ser relevante é o de que, justamente pela mesma cultura machista que sobrecarrega as mulheres com afazeres de casa, os homens tem mais dificuldade de falar sobre sentimentos e procurar ajuda profissional de psicólogos e médicos. É tanto que no meu consultório e no de todos os outros endocrinologistas há 3x mais pacientes mulheres do que homens. Os homens sentem uma pressão para serem “durões, fortes e inabaláveis”, e isso com certeza dificulta os cuidados com a saúde deles.

Manu Silveira: que fator você considera o mais difícil no processo de emagrecimento feminino? Muda quando a mulher é trans?

Dra. Natália Alencar: o fator que considero mais difícil no emagrecimento feminino é que o metabolismo das mulheres é mais lento que o dos homens, ou seja, precisamos fazer uma dieta mais restritiva em calorias do que os homens para perder peso. Nas mulheres trans isso não acontece, pois elas tem mais massa muscular que as mulheres cis, por terem nascido e vivido vários anos com níveis de testosterona elevados.

Manu Silveira: se eu não posso investir nos dois ao mesmo tempo, por onde começar: saúde mental ou saúde física?

Dra. Natália Alencar: acredito que em saúde mental. Será bem mais fácil ter motivação para seguir um plano de treinos e de dieta se você não estiver com algum transtorno de ansiedade generalizada, transtorno depressivo ou outros transtornos mentais descompensados. Mas, ressalto que cuidar de um ajuda automaticamente no outro! O maior exemplo é o exercício físico: libera neurotransmissores do prazer que melhoram a saúde mental.

Manu Silveira: de que forma posso conectar meu corpo e mente? Por que e qual a importância de fazer isso?

Dra. Natália Alencar: uma forma prática de fazer isso é com a AUTO-OBSERVAÇÃO: sentir seu corpo e a sua respiração. Se você está trabalhando e está sentindo ansiedade, por exemplo, repare se está contraindo algum músculo e faça ciclos respiratórios conscientes. Isso é essencial para sairmos do piloto automático e tomarmos as pequenas decisões do dia a dia de forma mais consciente.

Manu Silveira: como mulher – e não só como médica – quais são os seus maiores desafios ao cuidar da saúde como um todo?

Dra. Natália Alencar: o meu maior desafio é gestão de tempo. É algo que reavalio constantemente e faço ajustes frequentes em busca do meu ponto “ótimo” entre trabalho e autocuidado. Eu tenho plena consciência de que atendo melhor as minhas pacientes quando estou calma e centrada. Para isso, percebi que não posso atender mais de 8 pacientes por dia e de que preciso ter turnos sem atendimento durante a semana para estudar, fazer outras atividades que nutrem minha mente, com curso de inglês, e para gestão de consultório.

E algo que mudou minha vida foi começar o dia com uma regra simples: nunca olho o celular na primeira hora após acordar. Começo o dia com páginas matinais de escrita livre e exercício físico, e isso faz com que o meu dia inteiro flua melhor. Ainda não tenho filhos, mas já imagino que com crianças o desafio deve ser bem maior. No futuro conto para vocês como vou lidar com isso. Kkkk

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Manu Silveira: para finalizar, nos conta um pouco a respeito do seu livro e de que forma ele pode nos ajudar nessa busca pela saúde em harmonia.

Dra. Natália Alencar: reuni no meu livro Saúde em Harmonia pontos que considero essenciais para a saúde física, mental e espiritual: alimentação saudável e consciente, construção de bons hábitos, exercício físico, sono, meditação e técnicas respiratórias, felicidade e gratidão. O livro ajuda o leitor a ter uma visão mais integral da sua saúde e a ter insights sobre qual dos aspectos da saúde está precisando mais da sua atenção no momento. Acredito que o aumento da consciência sobre a saúde é o primeiro passo para a mudança. O livro fornece dicas práticas importantes para colocar o autocuidado em prática.

Como você tem feito essa conexão corpo e mente?

Depois das recomendações da Dra. Natália, já temos uma melhor noção da importância dessa conexão entre o corpo e a mente e em como isso impacta diretamente a nossa saúde. Eu adorei saber mais sobre, e você? Para trazer isso para o dia a dia, é importante que apliquemos esses conceitos em nossas rotinas. E, se você quiser aprofundar mais sobre o assunto, eu super recomendo o livro. Já li e gostei muito!

Jornalista por formação e publicitária por profissão. Gosto de músicas, coisas asiáticas, gastronomia, beleza e comportamento. Passo as horas de folga atualizando as inscrições do youtube ou cozinhando guloseimas.
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