Boas leituras de março: Torto Arado

Torto Arado é um livro lindo, cheio de memórias, afetos e dores coletivas que são parte da nossa cultura – quer você se identifique com as experiências das personagens, quer não. 

Sinopse de Torto Arado

O romance Torto Arado conta a história da ancestralidade do sertão brasileiro sob os olhares de Bibiana, Belonísia e sua família. Por meio da infância, adolescência e vida adulta das duas irmãs, o livro percorre também a história de vida dos familiares, carregando na narrativa as relações servis, as relações entre os trabalhadores da Fazenda Água Negra, os sonhos, as crenças e as religiosidades vividas pelo povo – desde a descendência africana até ares mais modernos. 

Imagem: Veja

Ainda crianças, um acidente liga a vida das duas irmãs de maneira indiscutível. A partir dali, elas precisarão uma da outra, compartilharão trabalho, afeto e experiências – cada uma à sua maneira, mas também numa troca íntima. Enquanto descobrem o mundo ao longo da idade, vão aprendendo também sobre o entorno – os familiares e demais descendentes há apenas trinta anos do regime de escravidão; as paixões da adolescência e a vida adulta, que chega com trabalho árduo, violência, dificuldades, sonhos e família.

As irmãs, o pai Zeca Chapéu e a mãe Salustiana também são defensores dos sonhos dos ex-escravos: uma escola para os filhos terem o direito de aprender a ler, um pedaço de terra para poder plantar para si, uma casa que se sustente com o tempo. Alguns, possuem sonhos maiores, como ensinar, lutar pelos direitos trabalhistas e conhecer a cidade grande. Com muita fé e crenças particulares, cada um vai fiando seu trajeto de vida, caminhando pelas experiências em meio à natureza e todo o poder que ela carrega em si.

O que mais me chamou atenção em Torto Arado

A relação da família de Zeca Chapéu com a natureza é uma coisa linda de se ver e de ler. Encanta os olhos mesmo que o pano de fundo seja a pós-escravatura. A escrita de Itamar Júnior é maravilhosa, poética e facilmente te transporta para esse universo não tão fantasioso assim. É como ler um livro de história sob (finalmente!) outra ótica. É entender não só o que foi imposto aos escravos (e vamos adicionar aqui aos índios), mas também o que se passava enquanto eles trabalhavam e lutavam pelo o que eram de direito.

Imagem: Cerratinga.org.br

O livro vai além do mais do mesmo dos senhores de engenho e açoites, uma visão necessária, mas também já muito abordada. Em Torto Arado, você lê sobre o cotidiano, a colheita dos buritis, as lendas da pesca, as expressões de época, as crendices, o que se come, o que se veste, como se relaciona. É um cotidiano rico e cheio de natureza, para além do sofrimento vivido. 

Torto Arado e a ancestralidade brasileira

Esse é um livro que abraça sua ancestralidade, mesmo que você não seja negra(o) e sequer tenha alguém descendente mais próximo na sua família. Ele fala do nosso passado – não tão recente assim. O passado do brasileiro – cheio de sofrimento, de muitas dificuldades para conquistar seu chão das mãos de quem nos colonizou, mas também repleta de fé, uma fé tão grande que move montanhas, dias, tempos e épocas.

Imagem: Divulgação

Se você tiver um pouquinho de vontade de entender melhor sobre as próprias raízes, sem dúvidas vai querer conhecer essa família e, quem sabe, ler e reler sobre esse cotidiano que faz parte de um passado coletivo.

Sobre o autor Itamar Vieira Júnior

Torto Arado ganhou várias premiações, incluindo o prêmio Jabuti, mas não parece ser por acaso. O autor, Itamar Vieira Júnior, tem uma bagagem antes dessa escrita. 

Doutor (UFBA) em estudos étnicos africanos e geógrafo por formação, Itamar parece ter usado todo o seu conhecimentos ao descrever lindamente a flora e a fauna da da Chapada Diamantina na Bahia (cenário em que se passa o enredo). Além da academia, ele também trabalha no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA, responsável também por gerir as terras da União*.

Imagem:Correio24horas

Apesar de todo o seu conhecimento sobre a geografia brasileira, ele não era romancista. Em 2018, publicou a história em Portugal pelo prêmio LeYa, recebendo o título de melhor romance em língua portuguesa. Somente após essa premiação, conseguiu propostas de editoras no Brasil. Dois anos depois, conquistou os Prêmios Jabuti e Oceanos de literatura. Que bom que chegou a ter esse reconhecimento, mesmo pelo caminho inverso. Os brasileiros agradecem!

*Com informações de Deviante.

Jornalista por formação e publicitária por profissão. Gosto de músicas, coisas asiáticas, gastronomia, beleza e comportamento. Passo as horas de folga atualizando as inscrições do youtube ou cozinhando guloseimas.
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